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O Brasil se Levanta. Mas, Ainda Pode se Levantar um Pouco Mais

By: Graham Brown - Jun 30, 2013, 6:43 pm

Na minha última visita ao Brasil, havia um escândalo de corrupção que tomava conta dos noticiários nas TVs. Não lembro exatamente das circunstâncias, somente que se tratava de um político bastante influente, um governador de estado, creio eu, num cenário bastante incomum. Num flagrante registrado por uma câmera escondida, este servidor do povo foi filmado recebendo um grande suborno, e, depois escondeu o dinheiro ilícito nas suas meias.

Agora, avançando rapidamente para esta minha atual visita e para os protestos jamais vistos nas ruas daqui: As várias queixas sobre corrupção me trouxeram de volta à mente aquele criminoso de sorriso demente que escondia nas suas meias o dinheiro ilícito . Quando eu questionei uma amiga sobre aquela cena da propina, a sua resposta foi reveladora; quando a perguntei: “O homem foi para a cadeia?” Ela caiu em uma risada longa e frenética. “Não, deixe de ser tolo!” — era a implicação — “nenhum político brasileiro tarimbado jamais verá o lado de dentro de uma jaula por causa de corrupção, mesmo que tenha sido filmado com a mão na grana — ou empurrando a propina para dentro das suas meias!”

E, obviamente, este é o problema: a corrupção é endêmica, assim como é endêmica a noção de que o governo também precisa ser grande. Todos sabem que a execução de um grande projeto implicará a liberação de “pagamentos informais” de alguma espécie. O que explicaria que um conjunto de estádios de futebol custe três vezes mais no Brasil do que na África do Sul? E qual o motivo de um dos países que compõe o bloco dos BRICs ser tão espetacularmente incompetente em modernizar os seus portos marítimos, que permitiriam a multiplicação dos seus negócios?

Bem, o meu temor agora é enveredar para uma típica bronca de um gringo que vem para o Brasil. Isto não é bom porque, obviamente, chateia os brasileiros. Gostemos ou não, o lugar onde nascemos compõe, pelo menos, uma parte da nossa identidade, e a crítica ao nosso país de origem pode machucar. Por isso, quero deixar bem claro: Eu amo o Brasil. Eu o amo tanto que estou ligado ao seu povo pelo meu casamento. Amo tanto este país que volto para ficar aqui, no mínimo dos mínimos, dois meses por ano. Eu viajo por esta terra, aqui eu me socializo, e gostaria de vir morar aqui. Eu amo o Brasil. (E eu, provavelmente, também amaria o restante da América Latina, se tivesse a chance de conhecê-la)

Os brasileiros não nascem com um carimbo de repartição pública grudado aos seus cordões umbilicais, eles entram neste mundo com a mesma honestidade e integridade que todos os demais povos. Eu não considero que a corrupção gerada pela burocracia daqui seja causada pelo caráter dos brasileiros, da mesma forma que não considero que o clima úmido da Grã-Bretanha seja culpa dos britânicos. Sim, ela afeta o caráter, sim, ela afeta a forma como vivemos aqui, mas ela, simplesmente, faz parte do ambiente. Felizmente, no caso brasileiro, a “tecnologia” para modificar esta ambiente está bem às mãos, o Reino Unidos, por outro lado, não terá tanta sorte!

Nós poderíamos dar alguns palpites sobre como as coisas chegaram a ser do jeito que são. Talvez isto venho do papel que o Brasil desempenhava como fonte de “commodities” para o império português. A burocracia imposta criava um sistema a ser manipulado e evitado, ao passo que a natureza exploradora do imperialismo estimulava uma atitude em que era preciso se esconder os ganhos. Nós também poderíamos apontar o dedo para as imposições de uma elite que era a proprietária das terras. Entretanto, as razões históricas são, de certa forma, acadêmicas: temos hoje uma situação real, e é sobre ela que devemos trabalhar.

Dilma Rousseff, a presidente do Brasil, fez um pronunciamento em cadeia de TV na noite passada. Se considerarmos que uma multidão esteve perto de depredar o prédio do Congresso alguns dias antes, o seu discurso, dificilmente, teria a intenção de provocar uma mudança no humor das massas. Protestar foi bom, disse ela, mas se houvesse mais violência, a força bruta seria usada na sua repressão.

Todo o dinheiro gerado pelo petróleo, que, ao que se presume, será gerado pelos novos campos petrolíferos, mas que ainda não foram explorados da camada “pré-sal,” seriam utilizados para a educação. Só que todos sabem que isto não passa de mais um alvará que abre caminho para a corrupção. Sim, é verdade, o dinheiro do petróleo entrará para o governo, mas quanto dele chegará realmente até as escolas, já é outro assunto. Ela lançou a proposta de importação de médicos de outros países. Mas, todos sabem que isto não passa de um acordo velado com o governo cubano para permitir a entrada de mais médicos vindos exatamente daquele país. Depois ela tentou ser evasiva ao mencionar que o futebol é uma forma unir as pessoas, que a Copa do Mundo era algo bom e que, além de tudo, o Brasil já era pentacampeão de futebol.

Tive o privilégio de me sentar com três gerações de brasileiros  e de ouvir as suas percepções sobre tudo isso. Uma pessoa de oitenta anos de idade quase nem demonstrou interesse, para ela: os governos vêm e vão. Alguns vêm por meio de eleição, outros pela força. A forma como eles se instalam pouco importa. Os governos fazem o que preferem, e não o que dizem que farão. Já uma pessoa com sessenta anos sentia um certo repúdio e eu consguia perceber como os seus olhos se desviavam. Sim, ela pode considerar o exercício do voto, pode tentar encontrar um partido político a ser apoiado, mas, mesmo assim, na verdade, que diferença isto faria?

Já para a minha esposa brasileira, havia algo diferente no ar. Ela sentia o mesmo repúdio, também meneava a cabeça, só que dessa vez havia também uma nova esperança. Isto porque a minha esposa sabe que existe uma solução real e realista.

Para fazermos o pão crescer, enquanto o amassamos, precisamos colocar um pouquinho de fermento. O fermento não custa muito caro, nem ocupa muito espaço na forma, mas a sua adição altera completamente o crescimento, a textura e a qualidade do pão. Só que o seu pão não irá crescer se você cobrir a forma antes de colocar o fermento.

Alguns anos atrás, a China acrescentou fermento à sua economia. Os chineses criaram Zonas Econômicas Especais que tinham regras diferentes, visando um incentivo maior ao comércio do que se via no restantante da China. Estas zonas cresceram por si mesmas, mas também serviram como exemplos e como formas benéficas de rompimento com a velha ordem reinante no resto da China.

Na prática, provavelmente, talvez naõ seja possível que um político brasileiro implemente alguma mudança significativa no sistema atual, mesmo que este fosse o desejo. Mesmo que uma pessoa de coragem e princípios decidisse entrar na luta para atingir os escalões mais altos, tão logo ela chegasse ao topo, ela se veria lutando contra interesses especiais entrincheirados em todos os dias do seu mandato. E, depois dessa pessoa ter sido derrubada, outro político surgiria para desfazer todas as suas boas ações.

É por essa razão que as Cidades-modelo (PDF) seriam de grande proveito para o Brasil. Estas áreas, inicialmente regiões desabitadas, que seriam minúsculas quando comparadas à enormidade territorial do país, teriam autonomia em algumas, ou mesmo todas, as regras que criassem. Estas regras favoreceriam, particularmente, a criação de riqueza por meio do empreendedorismo e da inovação. Elas teriam as suas próprias instituições, tais como tribunais para as leis civis.

Tudo isso significaria que os residentes nestas zonas continuariam sendo brasileiros dentro do Brasil, porém toda a burocracia e as instituições que estão paralisadas nos ciclos de corrupção seriam barradas na fronteira destas zonas.

O Brasil está idealmente posicionado para abrigar este tipo de área. A sua grandiosidade territorial e a baixa densidade demográfica significam que estas zonas poderiam ser criadas em locais múltiplos. Isto permitiria que elas competissem na atração de moradores e empresas, tanto entre si, como com o restante do país. Essa pressão gerada pela concorrência, então, trará melhorias na forma como o Brasil é governado.

Nestes últimos protestos, houve quem levantasse uma faixa com os dizeres: “Se vão importar médicos de Cuba para melhorar a saúde, também quero políticos da Suécia para dar cabo à corrupção no Brasil.” Esta conceito, de se conseguir uma melhor governança que venha de para-quedas, jamais poderia ocorrer no país todo, nem de uma vez só. Mas, isto poderia ocorrer em algumas regiões menores do Brasil, de forma imediata. E esta seria a pitada de fermento que faria com que o Brasil se tornasse a nação que sempre deveria ter sido.

Traduzido por Marcelo Siqueira Gonçalves.

Graham Brown

Graham is the author of the Dreams of Cities blog and writes about issues related to start up cities and similar concepts. He hails from the United Kingdom and currently resides in Brazil. Follow @A14R4.